Cira e os Volutários da Pátria

Dezembro 1, 2008

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De seu esconderijo, estrategicamente escolhido entre as folhas de uma figueira, Cira fitava a trilha. Ao longe, podia ouvir as passadas sem pressa dos bois, o rangido pesado das rodas da carroça que se aproximava e um assobio sem talento, de notas escolhidas ao acaso. Era sua vítima que se aproximava.

Desde que se separou de Nhá, a pequena amante de seu pai, Cira decaiu. Ela tinha consciência disso. Tanto, que evitava visitar a árvore-mãe. Tinha vergonha do que se tornara: uma caçadora de riquezas.

Cira percebera que, para viver na nova ordem que se formava e se espalhava como erva daninha, espalhando suas raízes no mundo, ela precisaria se ajustar. Ajustar-se nessa nova ordem significava acumular dinheiro. Para isso, atirou-se em diversas atividades lucrativas. Assassinato, prostituição, roubo, contrabando.

Naquele momento, estava trabalhando como aliciadora de voluntários para o exército que estava sendo montado. Os Voluntários da Pátria, como diziam os cartazes, para lutarem contra o regime de terror que imperava no Paraguai. O exército pagava 5 contos para quem trouxesse vagabundos para integrarem os Voluntários.

O carroceiro apareceu. Era um pequeno agricultor mulato, que trazia cenouras, milho e feijão para vender na cidade. Cira já o vira, antes. Chamava-se João. Cira sabia que, além de uma mulatinha de 15 anos, com quem tentava fazer um filho, ninguém mais choraria por ele. Segundo seu ponto-de-vista, distorcido pela cobiça e auto-indulgência, Cira estava fazendo um favor para a menina.

Quando a carroça passou por baixo da árvore, Cira pulou. Caiu sobre o feijão. Suas botas amassaram os grãos. João não teve tempo de olhar para a figura que se avolumava atrás dele, vestida com um casaco de couro e botas pesadas, com enfeites em marfim, sobre sua carga de feijão. Caiu desmaiado, graças a uma paulada eficientemente desferida no alto de sua cabeça.

Cira amarrou o homem, levou-o a uma das juntas militares que recebiam Voluntários e despejou o infeliz aos pés de um oficial, que lhe pagou 5 contos e recomendou que continuasse a trazer esses “vagabundos”. Cira contou o dinheiro e foi-se embora, sem fazer promessas. Vendeu os bois e a carga de Joaquim. Ele não foi o primeiro e nem seria o último Voluntário da Pátria aliciado por Cira.

 

João marchou para a frente de batalha. Sua outra escolha seria o fuzilamento. Usava a roupa surrada e as botas velhas que vestia no dia em que fora seqüestrado. Por arma, deram-lhe apenas uma lança. João nunca combateu os paraguaios. Pegou cólera e morreu cagando as tripas no Mato Grosso.


Sobre Domingos, o Paulista

Novembro 12, 2008

“Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo língua, porque nem falar sabe nem se diferencia do mais bárbaro tapuia, mais que em dizer que é cristão, e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir como procede no mais, tendo sido a sua vida desde que teve uso da razão – se é que a teve, porque se assim foi, de sorte a perdeu, que entendo a não achará com facilidade – até o presente, andar metido pelos matos à caça de índios, e de índias, estas para o exercício de suas torpezas, e aqueles para os granjeios dos seus interesses.”

D. Francisco Lima, Bispo de Olinda

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Mboitatá

Novembro 8, 2008

Mboitatá é o nome popular dado às cobras-guerreiras abissais. Segundo estudiosos de artes ocultas, as mboitatás são de difícil concepção. Exigem uma complexa combinação de artimanhas e tramas para transformar uma alma pré-disposta em uma mboitatá. Eles também argumentam que, muito embora este processo seja acessível a magos e bruxas, devido a sua complexidade e depravação, apenas Lúcifer se atreve a realizá-lo.

Os mboitatás são violentos, fortes e muito leais a seus mestres. Embora perigosos, não são indestrutíveis. É necessária muita força moral e habilidade para se derrotar um mboitatá em combate. Mas é possível.


A hora de Josué

Setembro 25, 2008

A pinga desceu queimando. Caiu no estômago e corroeu mais um bocado da úlcera, mas Josué não sentia. Não distinguia nenhuma sensação. A fome não apertava, a dor não latejava, o prazer não saciava. A fome saciava, a dor apertava e o prazer latejava. Estava bêbado. As mãos suavam. A testa suava. Seu acordeom suava. À sua esquerda Barnabás castigava o bumbo. À direita, Soarez com um triângulo.
O boteco estava cheio, mas as portas estavam abaixadas. Faziam isso para evitar as reclamações dos vizinhos. Todos que permaneciam no bar, àquela hora, eram fregueses constantes. Fiéis.
Barnabás deu três batidas no bumbo para anunciar a próxima música. Josué respirou fundo e comprimiu o instrumento, arrancando um som alegre e malicioso.
Os homens bebiam cerveja e pinga e fumavam cigarros baratos, comprados de camelôs. As mulheres dançavam libidinosas, com coxas e barrigas à mostra.
A música acabou. Josué tomou outro gole. Longo, entorpecente. Olhou o relógio da parede. Não sabia precisar a hora, mas o ponteiro menor havia passado do número 12. Era tudo o que ele precisava saber.
Barnabás bateu o sinal para a próxima música. Josué começou a tocar. Seus dois companheiros não acompanharam, de início. Era uma música que não conheciam. Com esforço, pegaram o ritmo. Ela era forte, agressiva. Barnabás começou a torturar o bumbo com crueldade e força. O triângulo tremia na mão de Soarez.
Os homens e mulheres dançaram. Excitaram-se. Alguns até mesmo se morderam.
Josué suava. Seu rosto transfigurado. Os olhos arregalados, os lábios sem cor, comprimidos, os dentes trincados.
Quando parecia que não havia como incendiar mais a música, Josué começou a cantar.
Sua voz estava rasgada, corrompida pelo álcool e pelo ódio.
Josué estava com muito ódio naquela noite. Tudo em sua vida ia mal. A mulher que deixara no sertão, ele soube por carta, havia se casado com um fazendeiro e mudado para o pantanal, levando seus três filhos. A mulher que arranjara na cidade, essa ele tinha flagrado naquela tarde, esfregando-se com um vizinho seu. Ele matara os dois e, enquanto tocava naquele boteco, os corpos provavelmente estariam começando a gelar e seriam encontrados pelos dois filhos que a moça tinha de um casamento anterior.
Josué sabia que não podia tocar aquela música depois da meia-noite. Ele havia sido avisado. Fora na noite em que pedira os favores do diabo, numa encruzilhada, oferecendo farofa, pinga e fumo.
Mas ele cantou. Queria acabar com tudo e todos.
O tinhoso havia avisado. Aquela música era especial. Transformaria Josué no rei do baião. Mas não depois da meia-noite.
Josué rosnou a poesia. Ela falava de cavalos com narinas em fogo.
O ar do boteco esquentou e do bumbo de Barnabás saía o som de cascos castigando a caatinga.
A poesia falava de bodes comedores de tripas e urubus comedores de olhos.
Os intestinos dos dançarinos dobraram e doeram e eles choraram.
Josué cantou sobre os cangaceiros mortos que vagavam como fantasmas vingadores de injustiças que sofreram e provocaram.
Quatro cavaleiros atravessaram a porta e não sobrou viva alma no boteco. Vestiam calças de couro e chapéus de cangaceiro. Nas mãos, rifles que cuspiam o fogo do inferno. Josué sorriu quando percebeu que sua miséria acabaria. Chorou e implorou quando percebeu que ela estava só começando.

No dia seguinte, o massacre foi anunciado como mais uma chacina. Não havia sinal dos cavaleiros com roupas de cangaceiros. Josué não estava entre os mortos. Apenas seu acordeom. Até hoje, ele é procurado pelo assassinato da mulher e de seu amante.


Os Guardiães

Setembro 23, 2008

Popularmente conhecidos como Curupiras. Plural.

A origem dos Guardiães é completamente desconhecida. Sabe-se apenas que já habitavam as Américas antes da chegada dos primeiros seres humanos.

Também não se sabe em que momento assumiram a responsabilidade de proteger as florestas. O mais provável é que essa decisão tenha sido forçada pela chegada dos primeiros humanos e seus hábitos natos de modificar o ambiente onde se instalam.

A forma original dos Guardiães também é um mistério. Sabe-se apenas que possuem uma capacidade avançada de mimetismo. A figura mais conhecida é a de uma criatura parecida com uma criança humana, pele verde, cabelos vermelhos e os pés virados para trás. Muitos estudiosos supõem que esse detalhe dos pés servisse para criar trilhas falsas e despistar caçadores. É a teoria mais aceita.

Quando os portugueses chegaram ao continente, restava apenas um deles e esta é a causa do equívoco de se considerar que existiu apenas um representante desta espécie. Considerando a longevidade dos Guardiães, sua força física e as evidências de habilidades paranormais, a causa do desaparecimento de quase toda a espécie permanece sem explicação. Todas as teorias levantadas até agora não encontram fatos sólidos e, por esta razão, não serão tratadas aqui.

O que se sabe é que o contato com os colonos europeus e a depressão resultante da solidão provocaram no último dos Guardiães (Curupira) um impacto psicológico muito forte. Por muitos anos, ele vagou pelas florestas, atacando indiscriminadamente caçadores, índios, aventureiros e até outras espécies não humanas, construindo, com isso, fama de diabrete. Não possui, até onde se sabe, qualquer relação com criaturas de origem inter-dimensional como diabretes, mboitatás, sacis, cucas etc.

Alguns pesquisadores defendem a tese de que, durante estes anos de desvario, o Curupira esteve viciado em tabaco.

É crença generalizada de que o Curupira continua a exercer seu ofício como Guardião de Floresta, mas especialistas concordam que ele abandonou o cargo há muito tempo. Continua vivo, mimetizado e adaptado a um novo modo de vida que todos os pesquisadores e teóricos, por mais estranho que pareça, se recusam a divulgar…

 


Sacis

Agosto 19, 2008

Quando as pessoas dizem “o Saci”, normalmente estão enganadas, pois pensam estar falando de um ser único e solitário. O Saci é, na verdade, uma expressão utilizada para denominar um povo. Um raça, uma espécie, se você preferir. Curiosamente, todos os representantes desse povo usam o mesmo nome, sejam machos ou fêmeas e é esse porém que causa nossa confusão. Um saci sabe quem ele é e sabe exatamente quem é o outro saci, embora cumprimentem-se:

- Saudações, Saci.

- Meus respeitos, Saci.

Sacis não sabem ler nem escrever, por isso não registram suas histórias. São um povo de tradição oral, o que acaba sendo um problema, pois são mentirosos.

Alguns estudiosos acreditam que a origem do saci é bastante recente. Diz-se que nasceram do cruzamento de diabretes trazidos involuntariamente nos navios portugueses com espíritos indígenas zombeteiros. Há quem discorde, já que os Sacis têm inegáveis traços africanos. Claro que esses questionadores estão esquecendo a influência moura sobre a península ibérica.

Sacis não têm qualquer noção objetiva de riqueza, embora sejam gananciosos obsessivos. Desejam qualquer coisa que percebam interessar a mais de uma pessoa e fazem de tudo para roubar. Por isso, costumam juntar os mais derivados e ricos tesouros, assim como as mais execráveis e inúteis bugigangas. A segunda opção é a mais constante. Mesmo assim, muitos aventureiros testam sua sorte caçando tesouros de Sacis.

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