De seu esconderijo, estrategicamente escolhido entre as folhas de uma figueira, Cira fitava a trilha. Ao longe, podia ouvir as passadas sem pressa dos bois, o rangido pesado das rodas da carroça que se aproximava e um assobio sem talento, de notas escolhidas ao acaso. Era sua vítima que se aproximava.
Desde que se separou de Nhá, a pequena amante de seu pai, Cira decaiu. Ela tinha consciência disso. Tanto, que evitava visitar a árvore-mãe. Tinha vergonha do que se tornara: uma caçadora de riquezas.
Cira percebera que, para viver na nova ordem que se formava e se espalhava como erva daninha, espalhando suas raízes no mundo, ela precisaria se ajustar. Ajustar-se nessa nova ordem significava acumular dinheiro. Para isso, atirou-se em diversas atividades lucrativas. Assassinato, prostituição, roubo, contrabando.
Naquele momento, estava trabalhando como aliciadora de voluntários para o exército que estava sendo montado. Os Voluntários da Pátria, como diziam os cartazes, para lutarem contra o regime de terror que imperava no Paraguai. O exército pagava 5 contos para quem trouxesse vagabundos para integrarem os Voluntários.
O carroceiro apareceu. Era um pequeno agricultor mulato, que trazia cenouras, milho e feijão para vender na cidade. Cira já o vira, antes. Chamava-se João. Cira sabia que, além de uma mulatinha de 15 anos, com quem tentava fazer um filho, ninguém mais choraria por ele. Segundo seu ponto-de-vista, distorcido pela cobiça e auto-indulgência, Cira estava fazendo um favor para a menina.
Quando a carroça passou por baixo da árvore, Cira pulou. Caiu sobre o feijão. Suas botas amassaram os grãos. João não teve tempo de olhar para a figura que se avolumava atrás dele, vestida com um casaco de couro e botas pesadas, com enfeites em marfim, sobre sua carga de feijão. Caiu desmaiado, graças a uma paulada eficientemente desferida no alto de sua cabeça.
Cira amarrou o homem, levou-o a uma das juntas militares que recebiam Voluntários e despejou o infeliz aos pés de um oficial, que lhe pagou 5 contos e recomendou que continuasse a trazer esses “vagabundos”. Cira contou o dinheiro e foi-se embora, sem fazer promessas. Vendeu os bois e a carga de Joaquim. Ele não foi o primeiro e nem seria o último Voluntário da Pátria aliciado por Cira.
João marchou para a frente de batalha. Sua outra escolha seria o fuzilamento. Usava a roupa surrada e as botas velhas que vestia no dia em que fora seqüestrado. Por arma, deram-lhe apenas uma lança. João nunca combateu os paraguaios. Pegou cólera e morreu cagando as tripas no Mato Grosso.

Escrito por waltertierno 
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